28 março, 2010

Viva a Ilha das Caieiras...






É sempre bom um dia bom! A mariscada fotográfica acabou virando 'orgia' gastronômica, ou qualquer coisa parecida. No fim, a digestão só podia ser fotografando. A Ilha das Caieiras pode soar clichê para alguns que já fotografaram por lá. Mas sempre existe algo do lado de lá para enxergar. Talvez, clichê 'esteja' o olhar!

Gustavo Louzada e sua querida Diana


Gustavo Louzada, eu, Gibran Chequer e Vitor Jubini fotografados por Gabriel Lordêllo

© Jussara Martins 2010

25 março, 2010

Na casa da lembrança, na casa da dor

O chão foi lavado. Mas fica a poça com o temido líquido vermelho, que lembra minutos antes.
Os investigadores vão embora. Logo chegam os repórteres (me incluo) e, ainda ali, o que resta de quem sente muita dor.
As imagens possíveis existem, dentro da condição do homicídio, da ameaça imaginável aos familiares, testemunhas... Existe também o limite, o momento de abaixar a “guarda”, as “armas”.

Enquanto outros repórteres buscam informações, meus olhos se fixam na poça, no reflexo de histórias. Não sei se existe alguma sensação exata, mas talvez eu tivesse presenciado tudo aquilo. Cada palavra que eu escuto, cada som da voz de uma mulher, machucada, faz com que eu me perca numa ilusão interminável, ou melhor, desilusão. De longe, não era nada tão pesado quanto o que já escutei e presenciei em tão pouco tempo de fotojornalismo, mas me causou muito impacto.

A voz era da avó do menino. Com apenas dezoito anos, ele era casado e se mudava de volta para a casa da mãe...

Mesmo inerte nas histórias que saem daquele chão lavado, um olhar se volta para mim. Este sim, perdido. Sinto mãos fortes apertando meu braço, ao mesmo que tocam fortemente meu rosto. Nesse gesto, também se apóia no pescoço do outro fotógrafo que está perto de mim. Uma avó que ainda é mãe. Suas lágrimas caem e secam tão rápido como se o corpo não permitisse mais chorar. Sem forças, talvez nem se reconheça mais... Em devaneios, ela não cansa de repetir: "ele vai embora amanhã. Ele foi embora, ele vai embora amanhã".

Obviamente, não sei o que fazer. Não sei como posso me comportar dessa vez. Mas tenho uma imensa vontade de abraçá-la, ainda que não saiba como. Devo retribuir a ligação que ela teve comigo. Mas meu poder físico, assim como o das minhas palavras, sumiu. Não, eu não consigo reagir. O único som sai trêmulo, assim como meu corpo.

Voltando a rotina. Só me pergunto por que vivencio esse e tantos outros momentos, mesmo em tão pouco tempo. A dor dos outros é tão presente, que fica essa questão. Nunca busquei tanto uma palavra, uma possibilidade de agir. Talvez eu seja melhor “falando” nas fotografias. Mas, dessa vez não trago nada. Fica tudo na casa da lembrança, na casa da dor.

E aí, ainda sinto suas mãos em meu rosto, esse olhar...

Jussara Martins

21 março, 2010

Manual desconexo dos espaços vazios







© Jussara Martins 2010

Eu sei, escrever palavras desconexas e sem uma sequência lógica é mais fácil. Pois em lugares não se sabe qual caminho seguir. Sei, de momentos em momentos, que não tenho o que dizer. Que qualquer som, qualquer linha escrita pode perder sentido, mesmo que exista vontade de encontrar sentido. Não, nada escrito nessas linhas, e que seja enxergado, precisa necessariamente ter sentido.

A sensação parte do toque. E onde existe distância, seja a distância do tempo e espaço, seja a distância intelectual, mesmo com a proximidade física, o abismo corpóreo é um sofrimento. Todos estão em fuga, deixam suas casas, buscam alguma proximidade consigo em lugares desconhecidos aos outros, se afastam mais das ruas. E quando estão lá, beiram o precipício. Talvez sequências sejam ilógicas, assim como o gosto por repetir as palavras em começos de frases para tornar os 'versos' claros. Talvez buscar nexo, mesmo sem nexo, seja encontrar, descobrir no tempo o espaço do que não tem sentido. Seja se encontrar no abismo, no único momento que se entrega a tentar uma relação que pareça segura, mesmo sentindo que serão somente intervalos iluminados e decorados com coisas, objetos, que preenchem vidas que parecem ter sentido. De qualquer forma, elas estão lá, buscando algum sentido no caos. Com muitas ausências e uma presença.
Ainda que palavras desconexas saiam em doses exageradas, voto pelo silêncio.

16 março, 2010


© Jussara Martins 2009

Waltercio Caldas em "Salas e Abismos".
Museu Vale - Vila Velha ES

10 março, 2010


© Jussara Martins 2010