25 março, 2010

Na casa da lembrança, na casa da dor

O chão foi lavado. Mas fica a poça com o temido líquido vermelho, que lembra minutos antes.
Os investigadores vão embora. Logo chegam os repórteres (me incluo) e, ainda ali, o que resta de quem sente muita dor.
As imagens possíveis existem, dentro da condição do homicídio, da ameaça imaginável aos familiares, testemunhas... Existe também o limite, o momento de abaixar a “guarda”, as “armas”.

Enquanto outros repórteres buscam informações, meus olhos se fixam na poça, no reflexo de histórias. Não sei se existe alguma sensação exata, mas talvez eu tivesse presenciado tudo aquilo. Cada palavra que eu escuto, cada som da voz de uma mulher, machucada, faz com que eu me perca numa ilusão interminável, ou melhor, desilusão. De longe, não era nada tão pesado quanto o que já escutei e presenciei em tão pouco tempo de fotojornalismo, mas me causou muito impacto.

A voz era da avó do menino. Com apenas dezoito anos, ele era casado e se mudava de volta para a casa da mãe...

Mesmo inerte nas histórias que saem daquele chão lavado, um olhar se volta para mim. Este sim, perdido. Sinto mãos fortes apertando meu braço, ao mesmo que tocam fortemente meu rosto. Nesse gesto, também se apóia no pescoço do outro fotógrafo que está perto de mim. Uma avó que ainda é mãe. Suas lágrimas caem e secam tão rápido como se o corpo não permitisse mais chorar. Sem forças, talvez nem se reconheça mais... Em devaneios, ela não cansa de repetir: "ele vai embora amanhã. Ele foi embora, ele vai embora amanhã".

Obviamente, não sei o que fazer. Não sei como posso me comportar dessa vez. Mas tenho uma imensa vontade de abraçá-la, ainda que não saiba como. Devo retribuir a ligação que ela teve comigo. Mas meu poder físico, assim como o das minhas palavras, sumiu. Não, eu não consigo reagir. O único som sai trêmulo, assim como meu corpo.

Voltando a rotina. Só me pergunto por que vivencio esse e tantos outros momentos, mesmo em tão pouco tempo. A dor dos outros é tão presente, que fica essa questão. Nunca busquei tanto uma palavra, uma possibilidade de agir. Talvez eu seja melhor “falando” nas fotografias. Mas, dessa vez não trago nada. Fica tudo na casa da lembrança, na casa da dor.

E aí, ainda sinto suas mãos em meu rosto, esse olhar...

Jussara Martins

3 comentários:

Priscila Milanez disse...

nossa, Ju...

dansesurlamerde disse...

é, Ju, nossa...
escrever talvez não sirma pra muita coisa, talvez apenas pra gente tentar se entender.

beijo.

Saade disse...

Texto forte. Você escreve bem, pitchulinha.